sábado, 13 de fevereiro de 2010

O Insuportável FARDO da Culpa

“Eu me sinto culpado! Não sei exatamente desde quando ou especificamente o porquê, mas, cada vez que penso naquela pessoa e situação, um sentimento pesado de culpa mina minhas forças, trazendo angústia, desânimo e dor!”
por Angela Pierangeli

Provavelmente você, assim como eu, já disse isso ou algo similar para manifestar seus sentimentos em relação a acontecimentos passados, em meio aos quais viu-se prisioneiro/a da culpa.

No princípio da minha caminhada cristã, senti-me, inúmeras vezes, muito culpada. Foi incutido em mim que, para agradar a Deus, eu deveria, de forma progressiva e constante, me afastar de todas as vontades humanas, fazendo morrer o meu “eu”. Obviamente, parte desse princípio está correto, no que tange à nossa caminhada na busca da santificação. Contudo, com o desenvolvimento da maturidade cristã, compreendemos que nem todas as vontades que nascem no nosso coração são pecaminosas. Muitas são até mesmo inspiradas por Deus e podem se transformar em fontes de alegria em nossa vida.

Por não saber diferenciar o que agradava ou desagradava a Deus, eu lutava constantemente contra tudo que julgava não ser de Deus. Então, ler um pouco menos a Bíblia para usufruir um tempo com amigos e amigas na sorveteria me fazia sentir muito culpada. “Paquerar” um rapaz bonito que não fosse evangélico era, na minha errônea concepção da vontade de Deus, um pecado grave. Assim, eu vivia atormentada e constantemente me sentia culpada e devedora, por causa de situações, pensamentos e desejos que hoje eu sei serem completamente normais na fase da adolescência.

Recordo-me como me era penoso participar do sacramento da Santa Ceia. Enquanto o pastor lembrava o sacrifício maravilhoso de Jesus na cruz por amor a nós, sentada no banco, eu me sentia a “pior” entre todas as pessoas ali presentes. Chorava compulsivamente enquanto todos os atos, palavras, ações e omissões que tinha vivenciado naquele mês vinham à minha mente, sobrecarregados de culpa.

Até que um dia, uma irmã, da Igreja Metodista em Poços de Caldas, veio conversar comigo depois do culto. Ela queria entender como um momento de celebração, de vitória, de alegria e gratidão, que era a celebração da mesa do Senhor, produzia em mim um estado tão lamentável de sofrimento emocional. Graças a Deus, naquele diálogo, pude compreender que pecamos e entristecemos a Deus, sim, mas que já não há sobre nós nenhuma acusação ou condenação (Veja Romanos 8:31-39.). Claro que isso não deve incitar-nos ao pecado. Na dependência da graça de Deus, isso significa saber que há perdão, restauração e reconciliação sempre, quando, sinceramente, nos voltamos a Ele. No mês seguinte, eu tinha a percepção correta da Ceia do Senhor e, desde então, é imensa a alegria de partilhá-la com os irmãos e irmãs na fé.

Lamentavelmente, muitas pessoas, hoje, vivem prisioneiras de sentimentos de culpa. Muitos cristãos e cristãs, que deveriam ter sua vida pautada na leveza da graça e da misericórdia de Deus, experimentam medo e profunda acusação. Como consequência, normalmente, transferem para os outros as ações e reações carregadas de agressividade e acusação. São mecanismos que, temporariamente, parecem ajudá-las a lidar com suas próprias culpas.

Sentir-se prisioneira de sentimentos de culpa pode levar uma pessoa a desenvolver outras diferentes reações comportamentais, que podem alterar, de maneira negativa, sua relação com o presente. E mais: modificar sua percepção, compreensão e avaliação do passado, conduzindo-a a uma projeção sombria e com perspectivas distorcidas para o futuro. Poderíamos afirmar, sem sombra de dúvida, que uma pessoa “contaminada” pela culpa sofre, física e emocionalmente, podendo ter alguns aspectos de sua vida seriamente comprometidos.

Para evitar isso, é vital que aprendamos, primeiramente, a diferenciar a “culpa verdadeira” da “culpa falsa”. A culpa pode ser definida como uma forma de dor mental e emocional que sentimos. Quando sua fonte é verdadeira, quando realmente nos envolvemos em uma situação na qual cometemos um equívoco, a culpa pode ser um mecanismo de ação extremamente positivo. Ao ser acionado, esse mecanismo pode nos levar a avaliar e modificar nosso comportamento, obtendo, dessa forma, amadurecimento.

Entretanto, existem inúmeras pessoas sofrendo essa dor sem identificar uma fonte verdadeira da qual ela emana. Afirmamos, então, que estão sob a couraça de uma falsa culpa. Essas pessoas desenvolvem sofrimentos psíquicos (angústia, medo, ansiedade) que se baseiam em seus próprios sentimentos e em uma interpretação equivocada deles. O raciocínio é conduzido pelos sentimentos: “Sinto que errei, portanto, passo a assumir culpa”. A partir desse sentimento, a interpretação da situação já está comprometida pela forma de sentir da pessoa. Isso cresce como uma “bola de neve”. Como a pessoa não consegue identificar a fonte, vai filtrando todos os demais acontecimentos que, naturalmente, são desencadeados como confirmação da culpa.

Poderíamos ponderar que há dois extremos relativos à culpa, ambos danosos à nossa saúde mental e emocional. Um deles ocorre quando uma pessoa neutraliza seu mecanismo de culpa, deixando de sentir-se incomodada pelos seus atos. Independentemente do grau de envolvimento equivocado que obteve em meio às circunstâncias (culpa verdadeira), ela não os assume. É comum encontrarmos pessoas que parecem jamais admitir que erraram. Sempre projetam a falha ou o fracasso na ação do outro ou outra. Portanto, não sentem nenhuma necessidade de avaliar ou modificar sua conduta e, tampouco, pedir desculpas pelos seus atos.

Essa cauterização do mecanismo da culpa pode chegar a ser tão danosa que torna as pessoas anormais. Em psicologia, as descrevemos como sociopatas ou psicopatas. São pessoas que perderam a capacidade de sentir culpa. Muitas se transformam em assassinas perigosas, que podem matar como se estivessem executando uma ação normal.

Outro extremo ocorre quando desenvolvemos culpa por tudo, em todas as circunstâncias e em todo o tempo. Perdemos a capacidade de analisar as fontes ou situações e, simplesmente, assumimos responsabilidades sobre elas. A culpa, então, passa a ser um capataz cruel e destrutivo em nós, produzindo constantemente sentimentos de autopunição, autorrejeição e vergonha.

Como consequência dessa relação equivocada de culpa, vários comportamentos são observados. Normalmente, as pessoas desenvolvem meios para se manter afastadas das outras porque creem que sua culpa está patente aos olhos de todos e todas. Gradativamente, suas relações emocionais se deterioram, pois compreendem as reações dos demais como uma postura de acusação às suas próprias ações.

Afastando-se da possibilidade de manter relações emocionais saudáveis, possivelmente a pessoa tenderá a se afastar de Deus, cujo conceito de santidade, grandeza e poder parece focar de maneira ainda mais intensa seus próprios sentimentos de culpa. A pessoa não se dá conta dessa distorção, que é sua. Se já se sente culpada diante dos outros humanos, quanto mais diante de Deus. Conceitos distorcidos e equivocados sobre as formas como Deus nos vê e conhece falseiam nosso entendimento do que nosso Pai Celestial espera de nós. Todas as possibilidades de um envolvimento criativo e amoroso com Deus são alteradas e perdidas.

Somente a experiência da graça nos revela que nosso Pai Celeste nos ama e nos aceita incondicionalmente. Apesar do que somos – e exatamente por causa do que somos –, Ele é capaz de reestruturar uma pessoa perdida na falsa e destrutiva culpa.  (continua...)

Fonte [No Cenáculo]

Em Cristo,
Itamar Carrijo

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