domingo, 4 de outubro de 2009

Se eu pudesse ...

Se eu pudesse ... pregaria a verdade do Evangelho

"Deus tem um tempo determinado para tudo, é tudo dEle, tempo, cura, emprego, sorrisos e Dias Felizes". Texto deJeferson Queiroz

Tenho muita pena de alguns crédulos. Chego a chorar por mulheres e homens ingênuos; os de semblante triste que lotam as magníficas Catedrais na espera de promessas que nunca se cumprirão. Estou consciente de que não teria sucesso se tentasse alertá-los da armadilha que caíram. A grande maioria inconscientemente repete a lógica sinistra do, "me engana que eu gosto".

Se pudesse, eu diria a todos que não existe o mundo protegido dos sermões e pregações satisfatórias, e que só gostamos das melhores mensagens. Só no "País da Alice" é possível viver sem perigo de acidentes, empregado perder seu emprego, ganhar na mega sena, viver sem possibilidade da frustração, sem contingência e sem risco.

Se pudesse, eu diria que não é verdade que "tudo vai dar certo". Para muitos (cristãos, inclusive), a vida não "deu certo". Alguns morreram em campos de concentração, outros nunca saíram da miséria. Mulheres viram seus maridos agonizarem sob tortura. Pais sofreram em cemitérios com a partida prematura dos filhos. Se pudesse, advertiria os simples de que vários filhos de Deus morreram sem nunca terem visto uma promessa se cumprir.

Se pudesse, eu diria que só nos delírios messiânicos dos falsos sacerdotes (lobos vestidos de pastores) milagres acontecem aos borbotões. A regularidade requer realismo da vida. Os tetraplégicos vão ter que esperar pelos milagres da medicina ou esperar pelo milagre divino que vem no tempo de Deus. Pode ser agora ou amanhã, mas vem - ou quem sabe, um dia, os experimentos com células tronco consigam regenerar os tecidos nervosos que se partiram. Crianças com Síndrome de Down merecem ser amadas sem a pressão de não "terem que ser curadas", Deus pode curar sim, mas não sob pressão humana ou dízimo alto. Os amputados não devem esperar que os membros cresçam de volta, mas que uma cibernética invente próteses mais eficientes. Diria que também Deus tem um tempo determinado para tudo, é tudo dEle no tempo, cura, emprego, sorrisos e dias felizes.

Se pudesse, eu diria que só os teólogos oportunistas menos escrupulosos prometem riqueza em nome de Deus. Em um país que remunera o capital acima do trabalho, os torneiros mecânicos, os motoristas, os cozinheiros, as enfermeiras, os pedreiros, como professoras, vão ter dificuldade para pagar as despesas básicas da família. Mente quem reduz uma religião a um processo mágico que garante ascensão social.

Se pudesse, eu diria que nem tudo tem um propósito. Denunciaria a morte de bebês na Unidade de Terapia Intensiva do hospital público como pecado; portanto, contrária à vontade de Deus. Não permitiría que os teólogos creditassem na conta da Providência o rio que virou esgoto, a floresta incendiada e as favelas que se acumulam na periferia das grandes cidades. Jamais deixaria que se tentasse explicar o acidente automobilístico causado pelo bêbado como uma "vontade permissiva de Deus".

Se pudesse, eu pediria às pessoas que tentassem viver uma espiritualidade menos alucinatória e mais "pé no chão". Diria: não adianta querer dourar o mundo com desejos utópicos. Assim como o etíope não muda a cor da pele, não se altera a realidade fechando os olhos e aguardando um paraíso de delícias.

Estou consciente de que não serei ouvido pela grande maioria. Resta-me continuar escrevendo, falando ... Pode ser que uns poucos prestem atenção.

Em Cristo,
Itamar Carrijo

Nenhum comentário:

Postar um comentário